Entre uma linha de código e outra eu escrevia, ou lia. De qualquer modo eu parava, precisava de um momento para sentir o fluxo de idéias, mesmo que destoantes do conteúdo da minha dissertação. Antes de tudo era uma pausa, com o tempo virou uma fuga. No começo essa pausa vinha acompanhada de um café.
- Vamos tomar um café? Só um.
- Vamos, estou precisando mesmo.
E assim alguns minutos eram perdidos no dia para socializar, tomar um café, ler. Depois o café começou a fazer mal, o estômago doía, os enjoos começaram, tive que parar com o café, começar com o chá. Vamos tomar um chá? Pode ser. E ai cresceu a fome, chá sempre me deu fome, então vamos comer também uma bolacha (ou biscoito, não sou preconceituosa). Claro.
Entre um teste e outro eu fugia, enquanto os processos ainda eram processados eu pedia pra sair na minha cabeça e corria para quaisquer outras atividades. Acabou que nesse tempo eu li muito, lia qualquer coisa que colocassem na minha frente, qualquer autor por mais maluco que parecesse, eu estava lendo. Li sobre carneiros voadores, mas esse não consegui levar muito adiante. Li sobre assassinos em série obcecados por morenas de olhos verdes, li sobre parasitas brilhantes e mais algumas coisas que, na hora, enchiam minha cabeça de idéias alimentando meu tão secreto desejo de, quem sabe, um dia, ser uma escritora.
O que é ser uma escritora? Eu não sei dizer, é um trabalho, igual ao que eu faço no laboratório, mas como eu nunca fui, não sei qual é a rotina. A minha é bem restrita. Acordar, tomar café (a refeição, não necessariamente a bebida negra estimulante), tomar banho (as vezes este vem antes do café), trocar de roupa, colocar tênis, sair, trancar a porta, andar, andar, andar (nada de ônibus). Chegar ao laboratório, pegar água, ligar o monitor, código, código, código. Aí, entre uma linha e outra: almoço. Entre um teste e outro: café. Uma palavra, bom dia, boa tarde, nada. Rostos vazios a minha volta, olhos concentrados. Uma janela, pequena, ligando meus pensamentos ao mundo exterior. No fim tudo volta para aquela janela. Escolhi aquele monitor por ser perto da janela, já é o meu lugar. Tranquilo.
Foi fácil descrever minha vida, ou o que ela era, em algumas linhas, o que eu podia esperar? Quando era mais nova, minha imaginação era mais ativa, agora fora podada pelas linhas, pelas janelas que não abriam, pelo estresse. Minha cabeça tinha que ser prática, pesquisadora, a criatividade tinha que ser direcionada para meus problemas, mas claro, problemas relevantes para indústria. Artigos, congressos. Felicidade. Ou não. Entre uma caneca e outra de chá eu chorava. Não tenho vergonha de admitir, eu chorava, sempre e quando pudesse, era algo um tanto quanto involuntário, apesar de não ser involuntário a ponto das pessoas perceberem. Bom, pelo eu acho que escondi bem, não? Talvez flagrassem meus olhos vermelhos, o nariz ligeiramente inchado, nunca fui muito de gritar minhas dores para o mundo, sempre esperei que o mundo reconhecesse que, talvez, eu estivesse cansada de lutar.
Mas o mundo não tem dessas coisas, as pessoas não chegam simplesmente em você e dizem “Ok, pode descansar um pouco agora, durma, só um momento, recupere-se”, existe sempre alguém pior, sempre alguém que precisa mais. “Mas você devia ter vergonha, olhe eu, olhe como eu estou acabada, muito mais que você”. Então seguimos, já que não queremos passar a imagem de fraqueza, ou sermos injustos. Mas então, não seria o outro fraco também? As vezes acho que a fraqueza é relativa, eu sempre estou mal, quaisquer outras pessoas podem superar.
É confuso, justamente por isso, desde nova, decidi não recorrer à ajuda externa, não divulgar assim meus sentimentos. Se quisessem, eles que adivinhassem. Então, para o mundo externo sou feliz, acolhedora, uma ótima ouvinte e ponto. Portanto, como podem ver, minha vida se resume a poucas linhas, poucos sentimentos, poucas aparências. Nada mais. E leituras, das mais diversas, chegava a ser obsessivo, a leitura sempre fez bem, é o porto seguro dos melancólicos, o refúgio dos anti-sociais e era assim que me sentia, anti-social na maior parte do tempo.
Foi estranho quando as coisas começaram a mudar. Acho que a primeira mudança sutil que posso reconhecer depois de algum tempo, quando volto minha mente para o período mais obscuro da minha memória no laboratório, se deu enquanto navegava pela internet (numa das ligeiras fugas após o café, ou chá) e me deparei com várias pedras, umas mais bonita que a outra, envoltas em linhas de cores pulsantes, aquilo me fez parar, pensar. Queria uma, sim, pelo menos uma, eram tão coloridas, pareciam tão opostas a qualquer coisa que representava minha vida naquele momento. Foi ai que a mudança começou.
Em dias frios e nublados, daqueles que mais parecem um convite a preguiça e ócio sem limites, gosto de ouvir The Cure, The Smiths ou qualquer banda britânica que faça um sonzinho bacana. Porque nestes dias tenho o estranho gosto de alimentar a melancolia.
ResponderExcluirNa minha percepção, melancolia nada tem a ver com tristeza, pelo contrário, ela chega até a me fazer feliz. Em dias assim, fico pensando em muitas e muitas e muitas coisas. Percebi até que são esses os momentos mais importantes na minha formação como pessoa porque são neles que penso, reflito... e aprendo. E para mim, não há nada mais bonito nesta vida do que aprender.
Existem pessoas que como eu, canalizam sua melancolia para o auto-conhecimento. E existem aquelas que dela se inspiram, e então escrevem. Acho que ser escritor é isso: um exteriorizador de melancolia. Quando vivemos a raiva, tristeza ou medo , alegria ou euforia, todos esses sentimentos não nos fazem escrever em "potencia máxima". Até mesmo quando estamos apaixonados e fortemente inspirados a criar, não vivemos nós a melancolia em sua forma mais gostosa, suspirando entre um pensamento ou outro que nos perdemos? Acredito que sim.
Não sei se sua pergunta sobre o que é ser um escritor foi retórica, mas quis deixar minha impressão, juntamente com um questionamento. Porque que quando uma pessoa deseja ser introspectiva, não gosta do que todo mundo gosta (por default), não age como todo mundo age, etc, aceita o rótulo de anti-social? Não seriam os outros anti-reflexivos? Acho mais bonito!!!
Beijos no <3
Adorei ler seu texto!
Em tempo. Ao falar da melancolia com esse sentido diferente da realidade, quase que poético, estou dando a minha impressão apenas. Uma percepção que eu quis ter e que faz eu viver de forma mais leve. Não significa que estou diminuindo ou não entendendo a dor de quem a sente de fato.
Excluir